Veios distintos da mesma lavra de ouro!

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Assim poderiam ser compreendidos os múltiplos e possíveis aspectos para análise e interpretação do filme recém-lançado “Homens e Deuses”.

A produção é simples, comparado aos recursos cinematográficos disponíveis hoje, de caráter quase artesanal, com narrativa linear e discursiva, indicando desde o início que a preocupação fundamental, não é atingir o grande mercado de cinéfilos, devoradores insaciáveis de novidades visuais, mas reeditar no conjunto, a fórmula conhecida de um cinema “naif” (ingênuo), que a história narrada pretende contemplar.


Impossível não perceber desde suas primeiras cenas, em virtude do universo de violência e o antagonismo de forças, no qual uma comunidade de monges está inserida, que a tragédia apresentada não aconteceria. Vê-los desaparecer lentamente entre as brumas gélidas daquela região da Argélia, é movimento consequente e quase inevitável, delineando a força do “batismo de Sangue”, que os martírios sempre presentes na Igreja evocam. Neste sentido não há para que procurar novidades, apenas indignado se permitir apreciar os fatos, que margeiam a crueldade humana, quando impregnada de absoluto poder.
Outro aspecto escancaradamente presente é o pastoral; como ignorar as comparações sobre quem é o “ramo e quem são os pássaros” com resultados tão diferentes na percepção das autoridades e das gentes simples?Para uns representam os motivos lógicos e pastorais para partir, aos outros as exigências do permanecer visando continuar, concluir e quiçá um dia celebrar a alegria da vitória, por haverem conseguido ser “servos inúteis“ enquanto bons pastores, daquele pequeníssimo e sofrido rebanho do Senhor na desqualificada Tibhirine.

A sintonia quase perfeita entre a profunda vida de oração, nos textos celebrados, nas liturgias ricamente ornadas em gestos, conteúdo, e os eventos do quotidiano, pode ser ressaltada e valorizada, para recordar que a verdadeira força viria sempre daquele que os chamou. Nada é adorno, tampouco haveria sustento, apenas em experiências devocionais desnecessárias. Orar adquire nas telas a força das últimas palavras de Cristo na Cruz, sem medos, ódios ou rancores, apenas a aceitação da inexorável dinâmica da realidade, impregnada de Páscoa, nos recentes e conflitantes anos de 1993.

Outros aspectos ainda poderiam ser ressaltados, valorizando esse pequeno grupo de homens franceses, mas o motivo desta reflexão é partilhar o que, sobretudo a mim causou impacto e emoção. Não eram os monges Cistercienses um pequeno grupo se super-homens, não havia forças extraordinárias atuando sobre algum deles; também não foram ali retratados como um “bando de vitimistas”, desses que uma visão distorcida das religiões produz aos borbotões, procurando entregar sua vida por nada, a fim de receberem algum reconhecimento. Eram homens na verdadeira dimensão dessa palavra, permitindo-se chorar, tremer, sofrer ante as ameaças, revoltar-se, até finalmente experimentar a força da própria franqueza e covardia.

Como aliar tudo isso à capacidade de “chegar até o fim”? Precisamos recorrer às iluminadoras palavras do mestre Jesus: “Se vocês tiverem amor uns para com os outros, todos reconhecerão que vocês são meus discípulos” Jo 13,35. Não foram as fiéis preces individuais que os sustentaram, ou as convicções humanas mais profundas de que estavam fazendo o correto, mas a insubstituível e grandiosa certeza de que poderiam contar com o apoio uns dos outros nos difíceis e finais momentos da entrega. Concretamente, quando alguém cambaleava, outro lhe oferecia o suporte de um braço; quando levados às lagrimas, outro estaria perto o suficiente para recolhê-las; quando o nível da angústia chegasse aos extremos, a certeza de um verdadeiro abraço, individual ou coletivo. O pronto valor “ombros” acolhedores, amigos e suficientemente encorajadores levando a continuidade no processo de conversão individual para a entrega coletiva, definitiva e generosa.

Durante grande parte da projeção sonhei com comunidades religiosas que expressassem essas características, desejei um dia conhecer pessoas que tratassem de maneira tão fraterna os irmãos e companheiros de ideal, como tratam as pessoas mais simples às quais estão destinadas; como finalmente me impressionaria ver irmãos cuidando uns dos outros e se permitindo receber cuidados dos demais, assumindo o caráter de ser família permeada das fragilidades ou possibilidades, que em todos os agrupamentos humanos se podem encontrar. Sonhei durante o filme um dia ver expresso entre os irmãos o que de fato nos identifica: O Amor mútuo, ou a Caridade como desejou ardentemente nosso fundador.

Pe. Rubens Pedro Cabral, OMI

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