Cartas Anônimas
Com quase todos os envolvidos já falecidos, tomo a liberdade de partilhar um dos mais tristes e quase trágicos momentos de minha vida familiar. No início de minha adolescência nossa família foi duramente castigada com cartas anônimas. De minha parte, dei pouca importância ao conteúdo maldito daqueles escritos que denegriam a imagem de minha mãe, do pai que ainda estava aprendendo a valorizar e de todos os que eram filhos, acusados de intencional cegueira. Para o jovem que fui tais cartas caíam sempre na indiferença.
Uma de minhas irmãs, entretanto assumiu o conteúdo das cartas como verdade, ingressando em movimento frenético de pesquisa, sondagem e desconfiança sobre todos, deixando em nossa casa, e no convívio familiar dolorosas sequelas, buscando por vezes refugiar-se em lares estranhos, alegando sua vergonha profunda pelo material escrito por alguém, que do ponto de vista dela se preocupava com o bom andamento de nossa família.
Permito-me aqui omitir o conteúdo das cartas, mais ainda sobre o contexto em que vivíamos na época, uma vez que minha família era muitíssimo visada em função do cargo exercido por meu pai em uma empresa. Descrevo os fatos, as dores consequentes e nossas posturas diante deles. O tempo passou, e com o retorno de minha irmã ao convívio normal da família o assunto caiu no esquecimento. Aparentemente o tempo cura tudo, mesmo que a memória não deixe escapar eventos significativamente marcantes.
Anos depois voltamos ao tema, agora com a autora das cartas de então, que acometida de um câncer gravíssimo solicitava a presença de minha mãe (meu pai já falecera) para pedir perdão e manifestar seu engano na forma errônea de conduzir o ciúme e a inveja sentida na época das cartas e do mal quase irremediavelmente efetivado em função de suas fantasias e do frágil contato com a realidade interna de nossa família. Ofensa perdoada, morte eminente e o saldo em nosso núcleo familiar: temos horror de cartas anônimas!
Por que a exposição dessa história? Infelizmente, em minha recente viagem a Recife, tive oportunidade de entrar em contato com uma carta anônima, vinculada a pessoa daquela querida Arquidiocese, tratando assuntos que edificam ninguém. Carta com nome verdadeiro, conteúdos explícitos e a ilusão de expressar boa intenção de quem escreve na preocupação com a Igreja, seu clero e o bem do povo de Deus. Creio haver sido escrita por pessoa acima de qualquer suspeita; ninguém levantaria mãos sujas para apontar um dedo na direção de outrem, convicta de sua benemérita tarefa ao denunciar o mal. Não desejo denegrir tal pessoa, até por receio de cometer pecado maior. O que espero é desclassificar o ato, a forma, ou ainda a pretensão de querer auxiliar no anonimato absoluto em assuntos delicados, íntimos e pessoais.
Por que utilizar este particular espaço? Acredito que seja nosso meio de comunicação mais amplo e tenho a oportunidade de escrever aqui sobre quaisquer assuntos, então pensava na possibilidade de fazer-me entender a todos, sobre esse delicado tema que não desejei omitir. Cartas anônimas deixam profundas marcas, cicatrizes que o tempo não cura, enquanto providências viáveis não podem ser tomadas. A acidez e a crueldade do conteúdo manifesto, verdadeiro ou não, provoca desconforto, trevas e divisão.
Quem escreve uma carta, ou a publica se compromete com sua mensagem, mas quando isso é feito no anonimato pode esconder motivações que permanecendo na sombra do próprio escritor poderá destruí-lo tanto quanto àqueles aos quais as palavras são dirigidas. Não quero intimar quem as escreve a identificar-se, seria tolice fazê-lo, quero conscientizar da ineficácia de tal atitude e do desserviço prestado. Quando adolescente eu era indiferente, como gostaria de voltar a ser novamente hoje. No momento, me entristecem tais eventos, também por recordar tantos e desnecessários danos vividos no remoto ambiente familiar.
Em nossas Dioceses existem pessoas absolutamente bem preparadas para ouvir, assumir e encaminhar quaisquer assuntos, não há limites para a fé, a sabedoria e a prudência, dos Bispos que Deus em sua infinita misericórdia escolhe como líderes. Existem Conselhos e órgãos bem estruturados para “oportuna ou inoportunamente” aquilatar todas as situações. Que nossa consciência sobre isso aumente sempre mais, e que haja menos cizânia na exaustiva semeadura do campo do Senhor que nossa realidade impõe.
Pe. Rubens Pedro Cabral, OMI


