A vocação que nasce da Relação Interpessoal
Como a palavra chamado pode dar-se de diversos modos, sempre dentro de uma relação interpessoal. É costume dizer que Deus chama tal ou tal pessoa. Se aceitarmos a expressão teremos uma relação entre a pessoa de Deus e a pessoa interpelada. Mas será que Deus chama diretamente? Será que Deus chamou Abraão, os Profetas ou os Apóstolos? É este último caso que gostaríamos de estudar um pouco mais a partir do texto do evangelista João no seu livro no capítulo 1, dos versículos 35 a 51.a indica "vocação" é chamado Alguém chama outra pessoa. Mas este
A partir deste texto queremos também mostrar como são muitos e variados os temas que correm no texto todo do Evangelho segundo São João. Não se trata de uma cocha de retalhos e sim de um pano muito bem tecido, com fios de cores diversas que se entrelaçam e dão ao pano todos os seus coloridos, reflexos, enfim toda a sua beleza. Não esqueçamos que "texto" é como "têxtil", ou seja, o resultado de um trabalho de composição e de articulação entre diversos elementos.
O texto que pretendemos escolher como ponto de partida, começa com a apresentação de João, a testemunha inicial do evento "Jesus de Nazaré". É bom notar que de fato, no evangelho segundo João, nunca João é chamado de "Batista" e sim sempre de "testemunha". Podemos verificar isto desde o Prólogo: "Ele não era a luz, mas veio para testemunhar da luz (1, 9) João dá testemunho dele (1, 15) Eu vi e dou testemunho que Ele é o Filho de Deus (1, 34)". João vai de novo testemunhar de Jesus designando-o como o "Cordeiro de Deus". É deste testemunho que vai nascer a vocação de dois dos seus discípulos como discípulos de Jesus.
Como bons judeus que freqüentavam a Sinagoga cada sábado, André e o seu companheiro sabem quem é este "Cordeiro de Deus". Um antigo midrash (interpretação atualizada) contava que o Faraó do Egito teve um sonho e viu uma balança de dois pratos. Num prato estava ele, Faraó, e todo o seu povo egípcio, no outro prato havia um cordeiro. Mas era o prato do cordeiro que era o mais pesado. Ao acordar o Faraó mandou chamar os magos da corte e explicou o seu sonho para obter deles o significado. Os magos responderam que se tratava do nascimento de um hebreu que seria mais forte do que ele e do que todo o povo egípcio reunido, pois iria libertar os hebreus da escravidão. Foi então a partir desta explicação do sonho que o Faraó mandou matar todas as crianças masculinas dos hebreus. A partir deste midrash nasceu a idéia que Deus mandaria um novo Moisés, um novo cordeiro para de novo libertar o seu povo, seria o Messias. O Messias era, portanto, esperado como um cordeiro. Para os mais atentos às Escrituras, eles sabiam também que o Servo Sofredor, redentor do povo, foi apresentado pelo Profeta Isaías como um cordeiro, levado ao matadouro sem abrir a boca: "Eram as nossas enfermidades que Ele levava sobre si, as nossas dores que ele carregava. Mas nós o tínhamos como vítima do castigo, ferido por Deus, humilhado. Mas ele foi traspassado por causa de nossas transgressões" (Isaías 53, 4).
É também o cordeiro que falta para o sacrifício de Abraão. "Onde está o cordeiro para o holocausto?" perguntou Isaac (Gênesis 22, 7). Como Abraão, Deus vai sacrificar o seu Filho Único para a vida do mundo (João 3, 16). Este sacrifício do Cordeiro é também um tema que vai voltar no fim do texto de João quando ele vai descrever a Paixão e Morte de Jesus. Ele inicia indicando a hora da condenação: "Era o dia da Preparação da Páscoa, perto da sexta hora" (João 19, 14). Ora, a sexta hora era a hora em que, no Templo, começava a matança dos cordeiros pascais em vista de festa que ia se desenrolar á noite. Jesus é condenado à morte na hora em que se matam os cordeiros. "João é o único evangelista a mencionar que, ao dar de beber vinagre, os soldados fixaram uma esponja embebida de vinagre numa vara de hissopo" (João 19, 29). Se prestarmos atenção à leitura de Êxodo 12, 22 veremos que foi também com uma varra de hissopo que o sangue do cordeiro foi aspergido nas portas das casa dos hebreus no Egito.
O cordeiro Jesus será morto e dos seus ossos nenhum será quebrado como exigia o ritual pascal: "Não deverá restar nada para o dia seguinte e nem se lhe quebrará osso algum" (Números 9, 12; João 19, 36). Aquele que é apresentado como Cordeiro de Deus no início do Evangelho, cumpre a sua missão pela sua Paixão e Morte.
O cordeiro é, portanto, uma imagem muito forte na teologia judia e na piedade do povo. Tudo o que se refere à libertação é ligado à imagem do cordeiro. Basta lembrar o cordeiro da Páscoa cujo sangue aplicado nas portas das casas dos hebreus no Egito, os salvou do Anjo exterminador e foi o momento decisivo da libertação da escravidão.
Agora João aponta para Jesus e declara que Ele é o Cordeiro de Deus. Esta declaração de João leva os seus dois discípulos a seguir este Galileu. Eles querem saber mais ao seu respeito. Assim foi a relação de discípulo que unia os dois a pessoa de João os levou a seguir Jesus.
Despertados pela palavra de João, os dois começam o seu seguimento de Jesus. Eles vão atrás. Jesus então os interpela: "O que estais procurando?" (1, 38). É uma pergunta que voltará várias vezes no resto da narração. É a pergunta de Jesus no jardim das Oliveiras aos que vem para prendê-lo (João 18, 4). É a pergunta que ele dirigirá a Maria Madalena no jardim da Ressurreição, na madrugada do primeiro dia da semana (João 20, 15). A resposta a esta pergunta será sempre uma identificação: "Sou eu" ou então "Maria". Agora vai ser um convite a entrar na sua intimidade.
Surpresos com a pergunta de Jesus, os dois discípulos de João respondem que gostariam de saber onde ele mora. Claro que para o evangelista a pergunta tem um sentido mais profundo: onde encontrar a Deus? Qual é a sua habitação entre nós? No Prólogo já no foi dado um princípio de resposta: "Ele plantou a sua tenda entre nós". É o tema da "Habitação", a Shekina de Deus no meio do seu povo. Agora é em Jesus Cristo que habita Deus no meio do seu povo. Assim terminará o primeiro capítulo de João: "Em verdade, em verdade, vos digo: vereis o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem" (João 1, 51). É uma alusão direta à escada de Jacó (Gênesis 28, 10-19) que viu os anjos subindo e descendo e declarou ao acordar do seu sonho; "Na verdade Javé está neste lugar e eu não sabia. Este lugar é terrível! Não é nada menos do que uma casa de Deus e a porta do céu" (Gênesis 28, 16-17). Assim Deus decidiu estabelecer a sua morada na pessoa de Jesus de Nazaré: "Vinde e vede!" (João 1, 39). João irá mais longe quando fará Jesus declarar na última ceia que não somente Ele é a presença de Deus "quem me viu, viu o Pai" (João 14, 9), mas também "Se alguém me ama, guardará a minha palavra e meu Pai o amará e a ele viremos e nele estabeleceremos a nossa morada" (João 14, 23).
Nem aqui (Monte Garizim) nem em Jerusalém, os verdadeiros adoradores do Pai, serão os adoradores em Espírito e Verdade (João 4, 21-24). Cada um pode se tornar habitação de Deus.
Então os dois discípulos acompanham Jesus. Eles ficaram com Ele naquele dia, "era aproximadamente a hora décima". Podemos nos perguntar por que João gosta tanto de notar o tempo: dia, hora... Tudo em João tem sentido de símbolo. É diferente de dizer que tudo é simbólico. Mas toda a realidade narrada tem sentido simbólico, isto é tem um sentido mais profundo, ou seja, a realidade apresentada precisa ser lida num nível mais profundo. A realidade só expressa uma realidade segunda. Temos que ler com os olhos da fé. Creio que é isto que diferencia o Evangelho segundo João dos outros chamados Sinóticos. Com João somos convidados a descobrir a personalidade profunda de Jesus, somos convidados a ler tudo à luz do Espírito Santo: "O Paráclito, o Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome, é que vos ensinará tudo e vos recordará tudo o que eu vos disse" (João 14, 26).
Pe. Francisco Rubeaux, OMI


